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Porto Portugal
Comer, beber, passear, matar a saudade, não se sabe
bem do quê. Mas cada rua estreita, cada ladeira, cada casario, pode
parecer extremamente familiar para o brasileiro, mesmo que jamais tenha
posto os pés na cidade do Porto, hoje Patrimônio da Humanidade. Não é
difícil compreender. Por maiores que sejam hoje as diferenças culturais,
Portugal é a nossa origem. A cidade tornou-se neste ano, junto com
Roterdã, na Holanda, Capital Européia da Cultura. Uma razão a mais para
ser visitada. De preferência a bordo de uma van alugada, com motorista,
porque é impossível visitar o Porto sem percorrer a rota do vinho que
faz a fama da região.
Conhecer a cidade do Porto é, sobretudo, reencontrar a
história e esquecer a balança. Significa visitar quintas (fazendas)
belíssimas, provar a comida mais tradicional, saborear queijos e não
resistir aos pães e doces que lhe são oferecidos, sempre acompanhados de
uma taça do vinho. A bebida, vão dizendo, combina com o linguadinho, o
arroz de malandro (bem soltinho), o toucinho do céu, a broa amarela, o
pão de favaios... E não há como negar. Doce, macio e perfumado, o vinho
do Porto guarda uma tradição de enorme dificuldade no cultivo das uvas,
no preparo do solo e na colheita. Ele vem da região do Douro.
A viagem começa na vizinha Peso da Régua, o centro
administrativo do vinho do Porto. Lá está a Associação de Aderentes,
centralizada no Armazém 43, um galpão imenso onde os vitivinicultores
deixam seus vinhos para estagiar em tonéis de carvalho. A Região
Demarcada do Douro divide-se em três: Baixo Corgo (bem perto do Porto, e
com cidades como Vila Real, Régua e Lamego), Cima Corgo (Favaio, Pinhão)
e Douro superior (Moncorvo). Em todas o visitante terá contato com o
turismo rural, numa viagem no túnel do tempo. Nas quintas mais antigas
ainda se usam os lagares para a pisa das uvas, os tonéis de carvalho e
tudo cheira a tradição, num cativante envolvimento pessoal no trato com
o vinho.
Entre uma degustação e outra no Armazém 43, cabem
visitas a pelo menos duas quintas situadas no Baixo Corgo. Das cerca de 85
mil vinhas no Douro, quase 2 mil podem ser chamadas de quintas, cujos
domínios devem ter, além das vinhas, a casa principal, a dos caseiros,
uma adega ou armazém e, dependendo da dimensão, um local para receber os
trabalhadores sazonais. Na Quinta da Casa Amarela, da família Regueiro
desde 1875, os proprietários orgulham-se de manter a tradição. Ali, de
oito a dez homens fazem a pisa das uvas porque acreditam que essa é a
forma de dar mais qualidade ao vinho.
O roteiro do visitante inclui conhecer todo o processo,
a casa, comer, fazer minicursos de degustação e, finalmente, a prova. No
lagar da Quinta da Pacheca, são 14 homens, em fila, que fazem a pisa,
entre brincadeiras e cantorias de influência celta. Essa é uma das mais
conhecidas propriedades do Douro. Um documento datado de abril de 1738 faz
referência ao local - a história registra que foi a primeira no Douro a
engarrafar sua própria produção. Um jantar por lá é inesquecível.
Mas não vá com muita ansiedade aos pães e queijos de entrada,
oferecidos na antiga adega. O jantar, na residência principal, será tão
ou mais farto.
A história do Vinho do Porto confunde-se com o passado
de Portugal. Os romanos, que ocuparam a região, foram os responsáveis
pela introdução dos lagares (os tanques de pedra onde se faz a pisa das
uvas) e as ânforas (vaso de cerâmica) para o envelhecimento do vinho. As
vinhas tornaram-se um negócio tão próspero que o imperador Domiciano
ordenou a sua redução de forma a manter o equilíbrio da produção
agrícola. O cultivo prosperou durante o domínio visigodo e sobreviveu à
ocupação dos mouros, dos séculos 8 ao 12.
Quando Portugal virou reino independente, a partir de
1143, o que até então era conhecido como vinho do Douro já era parte
substancial da economia. O vinho descia rio abaixo para o Porto e de lá
era exportado. Foi em 1675 que, numa remessa de vinhos enviada à Holanda,
apareceu pela primeira vez o nome "vinho do Porto".
Numa antiga rixa entre franceses e ingleses, surgiu a
bebida como se conhece hoje. Ao norte do Porto, em Viana do Castelo, havia
uma próspera colônia inglesa que importava lã da Inglaterra e exportava
produtos agrícolas, entre eles um vinho verde para o qual a nobreza
britânica torcia o nariz, mas que fazia a festa dos marinheiros.
Quando, em 1660, Inglaterra e França entraram em
atrito por conta do vinho bordeaux - o francês eleito pelos nobres, que
se tornou proibitivo -, os ingleses tentaram fazer do vinho dos
marinheiros um substituto. Não deu certo. Passaram, então, a
comercializar o vinho do Douro. Só que, para fazer as longas travessias
sem perder o carregamento, os ingleses resolveram acrescentar aguardente
nas barricas para interromper a fermentação. Estava inventada uma das
maravilhas de Portugal.
Rumando mais ao norte do país, a Região Demarcada da
Bairrada, confinada no triângulo que compreende Aveiro, Bussaco e Coimbra
é uma sucessão de colinas suaves em cujas encostas estão plantadas as
videiras que dão bons vinhos de mesa, brancos, tintos e espumantes. Nesse
cenário ficam quintas centenárias como as do Carvalhinho, de São
Domingos ou nas Caves Primavera.
O nome Bairrada vem provavelmente por conta do solo de
barro e argila e de sua recente demarcação, em 1979. Mas, garantem os
enólogos locais, que desde meados do século 19 há uma demarcação
não-oficial, para atestar a tradição secular como região vitivinícola.
E vão ainda mais longe: como o vinho está ligado às atividades
monásticas, conclui-se que a tradição remonta aos séculos 10 e 12.
O leitão da Bairrada está entre os mais tradicionais
pratos da cozinha portuguesa. É espetado numa vara e assado durante quase
duas horas em forno a lenha. Dois doces são típicos: os caramujos,
feitos de gemas de ovos, moldados em folha de hóstia; e as cavacas de
Luso, receita das freiras do Lorvão.
Mas, sem dúvida, a grande atração dessa região
está encravada na Floresta do Bussaco: é o Bussaco Palace Hotel, castelo
erguido para servir de residência aos últimos reis de Portugal durante
suas caçadas. Hoje, um dos melhores hotéis do mundo. Em estilo
neomanoelino, tem suítes que aliam simplicidade ao bom gosto. Sem contar
a paisagem privilegiadíssima. Tem cedros, sequóias, acácias, freixos e
árvores vindas dos quatro cantos do planeta e cuidadas por gerações de
carmelitas descalças, que viveram em clausura por mais de 200 anos, entre
1630 e 1834.
Uma muralha de mais de 5 mil metros protege a mata e,
embora tenha várias entradas, apenas a Porta das Ameixas, a Porta da
Serra, a Porta da Rainha e a Porta da Cruz Alta, se comunicam com as vias
de trânsito. Cada uma tem a sua história para contar das bulas papais
aos monumentos de guerra.
Antes que o visitante se recupere das agradáveis
surpresas da Rota do Porto, já é hora de aguçar o paladar para entrar
na Região Demarcada do Dão que, dizem os portugueses, "não é
nenhuma modernice, foi instituída em 1908". E acrescentam:
"Visitar o Dão é encontrar os homens, pisar a terra, desvendar o
vinho". Isso se justifica porque o terreno acidentado, os
minifúndios (quase 100 mil proprietários) e a exuberância de pinheiros
e giestas são responsáveis pela paisagem. Lá não se distinguem as
videiras. Do carro quase nada se vê, mas elas somam mais de 75 milhões,
prova de sua importância para a economia local.
Na Província de Beira Alta, no centro-norte de
Portugal, a área tem dez quilômetros de extensão de Mortágua a Aguiar
da Beira. Lagaretas escavadas nas rochas e vestígios da presença romana
são prova da tradição milenar da produção do vinho. Como uma quinta
nunca é igual a outra, um tour é fundamental. E não só pelo vinho. Há
muito de história. A Casa de Santar é considerada o coração da região
do Dão - tem entre 100 e 120 hectares. Fica em meio às Serras da Estrela
e do Caramulo, onde o degelo da neve dá origem aos Rios Mondego e Dão.
Deixe para o dia seguinte a visita ao Curral da Burra,
em Falorca de Silgueiros. O cartão do restaurante já diz: quando chegar
a Falorca, pergunte onde é o Curral da Burra. Todo mundo sabe. É ali que
se come o famoso cabrito com batatas, assado na pedra - no meio da rua,
diga-se de passagem. E curral não é só um nome. No passado era isso
mesmo. Escavado na pedra, com uma porta e sem janelas, lá dentro não se
sabe se é dia ou noite. A tradição pede que se deixe um bilhete
pendurado no teto. O simpático proprietário, Antonio Paes, se encarrega
de listar as celebridades que estiveram por lá, como Sônia Braga e Bruna
Lombardi. Para lembrar no resto dos seus dias, prove o queijo da serra,
cremoso por dentro.
Uma dica de hospedagem, a pequena Casa dos Gomes é uma
propriedade rústica do século 18, em São João de Lourosa, zona urbana
de Viseu. Entre quintas para degustações e compra de vinhos, conheça a
Quinta dos Roques, Casa da Insua, em Penalva do Castelo e, em Carregal do
Sal, a Dão-Sul e a Quinta do Cabriz.
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