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Havana Cuba
Conhece o ditado que diz "as aparências
enganam"? Pois ele se aplica perfeitamente à capital cubana. Por
trás dos casarões antigos com paredes descascando e de colorido
desbotado escondem-se belas e curiosas surpresas. A começar pelo seu
povo, alegre e hospitaleiro como os brasileiros. Aliás, verdade seja
dita, semelhanças não faltam entre nós e os cubanos. Basta colocar os
pés em Havana para senti-las. Há até quem diga que a cidade é um
Pelourinho em piores condições. Mas não é só pelo calor e pela
simpatia da população que somos hermanos.
Em Cuba, o ritmo está no sangue. Não vem do samba,
mas da salsa, do mambo, do bolero. O gingado é semelhante, herança da
influência negra. A mesma que presenteou cubanas e brasileiras com
sensuais quadris largos, que elas sabem muito bem exibir. Na culinária, o
arroz com feijão é prato típico daquelas bandas, disfarçado em nomes
como moros y cristianos ou congrí. E até os orixás são cultuados. Lá,
o nosso candomblé se chama santería.
Num primeiro contato com os habitantes da maior ilha do
Caribe percebem-se também as marcas do embargo econômico e político dos
Estados Unidos, vigente desde 1962. "One dólar, un dólar."
Ninguém sai sem escutar a frase. Para conhecer Havana tenha em mãos
trocados da moeda. Paga-se esse preço por charutos clandestinos vendidos
nas ruas, por uma foto em que, mesmo sem querer, um cubano aparece. Mas
nunca por esmola.
Na cidade de Fidel Castro, dois mundos sobrevivem: o
dos visitantes, capitalista - com tevê a cabo, internet e dólares - e o
de seus 2,4 milhões de habitantes que assistem a dois canais estatais,
usam o telefone do vizinho, compram com pesos cubanos, mas fazem de tudo
para conseguir valiosas notas de dólar. Pensa que alguém reclama? Não.
Quando questionados sobre como anda a situação em um dos três únicos
países do mundo que mantêm o regime comunista (os outros são Coréia do
Norte e China), muitos respondem, orgulhosos: "A educação e a
saúde são gratuitas e de excelente qualidade."
O turismo também vai bem. É a maior fonte de renda do
país. Brasileiros, porém, ainda são poucos. Dos 1,8 milhão de
visitantes que Cuba recebeu no ano passado, apenas 9,5 mil eram
tupiniquins. De acordo com o diretor do Escritório de Turismo de Cuba no
Brasil, Roberto López Rodríguez, a ilha quer receber mais turistas do
país do futebol e das novelas de que eles tanto gostam.
Em 16 de novembro de 1519 nascia a pequena vila de San
Cristóbal de La Habana. No local onde foi rezada a primeira missa
sobrevivem umas das primeiras construções civis de Cuba, chamada de El
Templete, e uma árvore. Diz a lenda que quem passar por lá no dia da
fundação do povoado, tocar na obra da natureza, der três voltas e fizer
um desejo, será atendido.
El Templete é um dos tantos atrativos da Plaza de
Armas, em Habana Vieja (Havana Velha). Do lado oposto, fica a Casa de
Governo, antiga residência de generais e capitães que hoje virou museu.
O que atrai a atenção é o chão de madeira na frente do edifício, no
lugar dos paralelepípedos comuns ali. É resultado das excentricidades de
um capitão que não agüentava o barulho das carruagens pelas vielas de
pedra. Além de simpáticos restaurantes e bancas que vendem livros,
encontram-se por lá postais, pôsteres e todo tipo de suvenir sobre Che
Guevara, Fidel Castro, o comunismo e la revolución. Atenção para a
pequena loja La Tinaja, a única da capital que oferece água
não-engarrafada, seguindo a tradição dos séculos 17 e 18, quando
diziam que ela não deixava envelhecer.
Da Plaza de Armas é possível ver parte da fachada
cor-de-rosa desbotado do Hotel Ambos Mundos, opção de hospedagem bem no
coração de Habana Vieja. Mas o motivo para estar sempre lotado é outro:
lá fica o quarto 511, onde se hospedou o escritor Ernest Hemingway.
Siga pela Rua Mercaderes, onde fica o museu da cidade (Museo
de la Ciudad) e o museu sobre a vida do libertador Simón Bolívar (Museo
Casa Simón Bolívar). Nada de pressa. Olhe para cima. Você poderá até
se sentir vigiado, mas não há maldade no olhar dos cubanos que adoram
espiar pela janela - quase sempre com roupas penduradas - o movimento nas
ruas. Na mesma ruela, um lugar perfeito para comprar um presente diferente
de Cuba. O Habana 1791 vende essências de flor de laranja, sândalo,
rosa, violeta e, para homens, de tabaco, colocadas em atrativos frascos.
Então, perca-se pela região, seguindo o som dos
vários ritmos que saem de cafés, restaurantes ou de um grupo de músicos
em uma esquina. Logo, você conseguirá chegar à Plaza Vieja, sempre
cheia de turistas e crianças brincando. A dica é fotografar os vários
estilos arquitetônicos (barroco, neoclássico e art nouveau) dos prédios
ao redor e tomar um café no Taberna.
Se preferir andar mais um pouco, deixe o trago para a
Plaza de San Francisco, mais ampla e arejada. Cuidado para não bater de
frente com o Cavallero de Paris, uma estátua em homenagem a um personagem
popular de Havana que viveu na década de 60. Chamado de maluco, ele
oferecia canetas e dizia ser guarda da rainha. Sempre à sombra da Igreja
de San Francisco.
Ainda em Habana Vieja, complete o roteiro de praças
dando um pulo na Plaza de la Catedral, onde, óbvio, ficam a barroca
Catedral de Havana, alguns cafés e lojinhas. Um conselho? Não gaste o
filme com as mulheres em trajes típicos, que cobram US$ 1 pela pose.
Durante o passeio, figuras tradicionais, e mais autênticas, aparecerão
em seu caminho. Debruçadas na janela ou sentadas na porta de casa. Daí,
dá até para puxar papo, escutar aquele espanhol cantado e entender um
pouco mais da alma cubana.
Não há um turista que passe por Havana e não se
encante com seu trânsito. Nada a ver com falta de congestionamento ou com
o comportamento dos motoristas. Das janelas dos ônibus ou andando pela
cidade, os olhares estrangeiros ficam vidrados nas ruas, que mais parece
um museu de carros antigos e veículos diferentes ao ar livre. A atração
é descobrir a cada esquina um novo modelo e fotografá-lo, já que depois
fica difícil descrever alguns deles para quem nunca os viu.
O que para muitos são peças de colecionadores, para
os cubanos são apenas o transporte do dia-a-dia. Por causa do embargo
econômico, os únicos carros que se vêem por lá são da década de 40 e
50, vestígios da influência americana do começo do século passado. É
o caso dos Ladas, Studebakers, Cadillacs rabo-de-peixe, de colorido
desbotado pelo tempo, ou das motocicletas side-car. Verdadeiras relíquias
em pleno funcionamento.
Bem mais simples, porém igualmente pitorescos, são os
bicitáxis e os cocotáxis, à disposição dos curiosos turistas. Estes
últimos, além de mais baratos - um passeio de meia hora custa por volta
de US$ 3 -, chamam a atenção de longe. Com uma espécie de
"orelhão" amarelo encaixado na traseira de uma motocicleta, os
cocotáxis transportam até dois passageiros, sempre em seu ritmo devagar.
Bicicletas e charretes também entram na lista, mas só completam a
paisagem. Não são para turistas, assim como os táxis particulares.
E, se a intenção for registrar no álbum de fotos
todos os divertidos meios de transporte da capital cubana, os gigantes das
ruas de Havana não podem ficar de fora. Fácil de identificá-los pelo
tamanho e pelas cores rosa, verde e amarelo, os famosos camellos (ônibus
compridos) comportam até 300 pessoas. Quer aventura? Tente dar uma
entradinha só para sentir o clima.
Charuto e rum. Traduzindo, puro y ron, autênticos.
"Os melhores do mundo", garantem. Basta passar alguns dias em
Havana para perceber que a paixão nacional por esses dois produtos é
tão grande que até parecem essenciais para a sobrevivência dos cubanos.
E, querendo ou não, eles se tornam também companheiros inseparáveis dos
turistas.
Por que não conhecer mais a fundo como se fabricam os
dois xodós dos cubanos, em vez de apenas degustá-los? A resposta sobre
onde ir é fácil e rápida: Fábrica del Habano Partagás e Fábrica de
Ron Legendário Bocoy. Em ambas, além de conhecer os processos de
produção, pode-se voltar para o hotel com a sacola cheia, pois elas têm
suas lojinhas próprias.
Na Partagás fica a casa de habano (como são chamados
os pontos oficiais para a venda de charutos) que mais vende puros no
mundo. Ao todo existem 88 casas em toda Cuba, sendo 15 só em Havana. Para
se ter uma idéia, a média de venda de charutos lá é de 2 milhões por
ano. Todos são feitos de forma artesanal.
Sente-se o cheiro inconfundível das folhas já na
entrada da fábrica, que fica atrás do Capitólio. Para a visita, de
cerca de 45 minutos, não se leva nada. Fotos, nem pensar. Saber que os
charutos são feitos com cinco folhas e a mistura delas é o que faz a
diferença entre os vários tipos de puro, constatar que eles são
separados em oito tonalidades na hora de ser embalados ou que se demora
uma semana até uma unidade chegar à caixa fazem parte do aprendizado
durante o recorrido. Mas interessante mesmo é ver a habilidade dos 600
funcionários e descobrir segredos do dia-a-dia de trabalho. Todos podem
fumar durante o expediente e, na hora da saída, ganham dois charutinhos
para levar para casa.
Em uma mesa central do quarto andar da fábrica fundada
em 1845 cultiva-se uma tradição há décadas. Para manter os
trabalhadores informados e entretidos sem que tenham de parar a
produção, todos os dias uma pessoa lê o jornal pela manhã e, à tarde,
uma novela de amor. A atual chama-se "Arrancame la vida".
Na saída, a casa de habano. Os amantes dos charutos
fazem a festa. Há marcas e modelos de vários tipos e preços (tem até
de mais de US$ 100). Partagás, Cohiba, Romeo y Julieta, Monte Cristo. O
melhor? Não tem. "Charuto é como mulher. Cada um prefere de um
jeito: mais gorda, mais magra, menorzinha...", explica Manuel, de 72
anos, que há 45 fabrica puros.
Com 40 trabalhadores e aberta desde 1934, a Fábrica de
Ron Legendário Bocoy fica mais afastada do centro. Assim como no caso dos
charutos, o rum lá é feito artesanalmente. Derivados da
cana-de-açúcar, há os de 3, 5 e 7 anos. O melhor de todos é o Isla del
Tesoro, envelhecido 25 anos. Mas é exclusivo da presidência, usado por
Fidel como presente a seus ilustres visitantes.
No segundo andar da fábrica, um pequeno museu, com
alambiques antigos, e uma loja completam a visita. É possível degustar
antes da compra e, para não fazer feio entre os cubanos, grave as dicas:
o rum branco (US$ 5 a garrafa), de três anos, é o usado para coquetéis
(tipo mojito). Já o rum escuro (de cinco anos) se toma puro, assim como o
añejo, envelhecido sete anos e mais caro (US$ 10 a garrafa). Para as
mulheres, a fábrica inventou o Elixir de Cuba (US$ 10), um rum doce e
suave, que leva uva-passa na sua composição.
Pode escrever. Depois dos passeios você entenderá
melhor porque os cubanos afirmam que nenhum cenário na ilha fica completo
se não há um charuto e uma dose de rum por perto
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