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Bretanha França
Se você estiver chegando à Bretanha, no Oeste da
França, pode relaxar. O ar é limpo, as paisagens da costa e do campo
são um descanso para os olhos, não se ouve falar em violência,
terrorismo e outras paranóias urbanas. Visitá-la é mais que tomar
contato com outra França, menos explorada nos documentários e nas
revistas: é conhecer uma das partes mais interessantes da Europa, de
cenários variados, personalidade cultural e peso histórico.
Última das regiões a se anexar à França, em 1532, a
altamente católica Bretanha tem ainda em seu DNA a marca dos celtas -
povo indo-europeu que se espalhou por países da Europa há 3 mil anos.
Cultiva músicas, danças e jeitos próprios e não deixa morrer seu
idioma, o bretão, aparentado de dialetos falados na Irlanda e no País de
Gales. Hoje, a língua e o francês convivem bem, em placas de trânsito,
monumentos e prédios públicos.
De certa forma, a Bretanha pode ser considerada o lugar
mais pobre da França - ou menos rico, já que não se vê opulência ou
penúria. Vive da indústria, da agricultura e, cada vez mais, do turismo.
A região se divide em cinco departamentos: Ille-et-Vilaine, Loire
Atlantique, Morbihan, Côtes d'Armor e Finistère. A capital é Rennes,
com 200 mil habitantes. Seus muitos vilarejos são interligados por boas
estradas. Casas de pedra dão o tom da paisagem que, volta e meia, revela
surpresas, de construções pré-históricas a catedrais medievais.
Simpatia é a marca da Bretanha. Para quem vem de uma
grande cidade, a sensação é a de ter encontrado um dos últimos redutos
de pessoas cordiais. Talvez o derradeiro esconderijo dos seres humanos
não-estressados. Os bretões mandam para escanteio qualquer estereótipo
do francês antipático e pouco gentil. São prestativos, se interessam
pelo lugar de onde você veio e pelo fato de um estrangeiro ter escolhido
a região para viajar.
Os bretões costumam cumprimentar com fortes apertos de
mão ou mesmo com quatro beijos - dois em cada face. Em especial nas
cidades menores, sempre aproveitam as datas festivas para revisitar suas
danças, músicas (executadas principalmente com gaita de foles), roupas,
comidas e bebidas típicas. Acima do sentimento de ser francês, um
bretão é antes de tudo um bretão.
Outro hábito que faz parte do cotidiano é o da sesta.
Nem as urgências do mundo contemporâneo, dos negócios ou a ansiedade
dos turistas são capazes de transformá-lo. As lojas fecham entre 12 e 14
horas. Almoçar, portanto, é algo que se faz nesse intervalo, restando
ainda um tempinho para uma soneca. Até nos restaurantes, saiba que é
difícil achar algum aberto depois das 13h30. Se você gosta de uma
refeição tardia no fim de semana, vai ter de se contentar com um lanche,
talvez café com sanduíche. E depois jantar. À noite, jovens e adultos
vão a bares e crêperies, para tomar cerveja - há boas variedades
locais, de sabor surpreendente -, vinho e sidra, a bebida regional.
Em especial na zona rural, vários costumes
desenvolvidos nos últimos dois séculos se mantêm vivos. As casas de
granito guardam a aparência de quando foram construídas, até 200 anos
atrás. E não é tão difícil encontrar algumas que nem dispõem de
banheiro, já que os moradores mais tradicionalistas dizem não se
importar em recorrer ao matagal nos arredores. Criar animais como porcos e
gansos, ter mais de um bicho de estimação, cultivar hortas e flores
também fazem parte do esquema de vida bretão. Aliás, é quase
impossível andar pela Bretanha sem avistar floreiras nas janelas, vasos
por todos os lados, canteiros bem cuidados. Hortênsias, violetas e
espécies típicas do campo são outro orgulho. Adornar casas e locais de
trabalho é uma iniciativa estimulada até pelo poder público, que
promove concursos para escolher os prédios mais bem enfeitados.
Na hora de pegar a estrada a partir de Paris, as
melhores alternativas para se chegar à Bretanha são o carro ou o trem.
Claro que dá para ir de avião, pois a região dispõe de bons
aeroportos, em Rennes, Brest e Lorient. Mas ir muito rapidamente e lá
pelo alto seria suprimir considerável parte do prazer da viagem. O
interessante é observar a transformação da paisagem, é passar por
vilarejos que parecem fazer parte de alguma cidade cenográfica, tão
formosos que são. De carro, até Rennes - a 350 quilômetros de Paris - ,
dá para ir em três horas de viagem. Com o trem, é mais rápido: duas
horas, pelo famoso Train à Grande Vitesse (TGV), que em alguns trechos
chega a desenvolver velocidade de 300 km/h.
Bons museus, atividade universitária intensa, vida
cultural agitada e um charmoso núcleo de casas e ruas medievais fazem de
Rennes um bom ponto de partida para um tour pela terra dos celtas. Com
viagens não muito longas, rodando de 100 a 500 km por dia, conforme a
disposição do viajante, é possível conhecer muita coisa. Os
brasileiros vão estranhar que não haja pedágios. Dá para ir a todo
canto sem desembolsar um níquel além do combustível e do aluguel do
veículo. E as estradas são ótimas, mesmo as secundárias. Não se vê
falha no asfalto, e a sinalização é impecável.
Com mapa a bordo, chega-se a qualquer lugar. Sendo
assim, as condições são perfeitas para o desfrute da paisagem: campos
de trigo, culturas de beterraba e milho (usados principalmente para
alimentar o gado), riachos limpíssimos, casas centenárias. Não raro, é
preciso esperar que um pequeno criador passe pela estrada com suas
vaquinhas, levando-as para a ordenha.
Nas estradas mais tranqüilas, volta e meia as lebres
cruzam o caminho, com seu jeito arisco. O comportamento arredio dos
bichinhos, ainda que instintivo, é plenamente justificado na região: na
temporada de caça, que começa em setembro, vale abater qualquer animal,
desde que não seja espécie ameaçada de extinção e que a residência
mais próxima esteja a 300 metros.
Na Bretanha, a natureza não é apenas cenário: é uma
força que influi no cotidiano das pessoas. Interfere nos tempos, na
alimentação, na ocupação dos espaços. Para se ir ou vir, há que se
respeitar as chuvas, a luz natural e as marés. As variações da região
estão entre as maiores da Europa, podendo superar os 15 metros.
O litoral, recortado, pedregoso e rico em espécies é
outra marca registrada da Bretanha, lugar de navegadores, pescadores,
aventureiros e, no passado, de corsários. Muita gente aproveita para
praticar esportes náuticos. Contudo, quem vem de fora talvez não se
sinta à vontade para um banho de mar. Mesmo no verão, a água é fria,
com temperatura de cerca de 20°C.
Nas praias, as construções são limitadas pelas
prefeituras. Em vários lugares, não é permitido erguer casas,
restaurantes ou seja lá o que for à beira-mar, o que ajuda na
preservação de um certo ar selvagem. Uma distância mínima deve ser
respeitada, que varia conforme as características da orla.
Quem quer sentir o sabor da Bretanha precisa se
aventurar por especialidades como crepe, sidra e, nas cidades costeiras,
os frutos do mar. Sobre o crepe, é bom saber que há muitas diferenças
daquilo que se serve em alguns restaurantes franceses no Brasil. A massa,
escura, feita de farinha de trigo sarraceno e manteiga é finíssima, de
espessura semelhante à do papel. Os recheios podem ser doces ou salgados
e contemplam de sorvetes a queijos e embutidos. Muito leves, os crepes
são baratinhos e podem ser encontrados por toda a região.
Com relação à sidra, também convém esquecer a
bebida homônima encontrada nos supermercados brasileiros. Na Bretanha,
quase todo proprietário de terra - pequeno ou mais abastado - produz sua
própria sidra. A receita é mais ou menos a mesma: as maçãs são
prensadas e seu sumo, depois de cerca de quatro meses de repouso,
fermentando, está pronto para ser bebido. O teor alcoólico é baixo, por
volta dos 4%, e o sabor guarda uma identidade padrão. Mas nunca se
encontra uma sidra igual à outra. Cada produtor tem seus segredos, coloca
a sua assinatura, o que pode significar uma mais doce ou mais frisante.
Já para os bretões da costa, nada representa melhor
do que um bom prato de frutos do mar. Prepare-se para saborear uma
seleção de lagostins, camarões, bigorneaux e palourdes (pequenos
moluscos que muita gente costuma apanhar na beira da praia durante a maré
baixa). E muitas ostras. Saboreadas cruas, para que se sinta o gosto do
mar, elas são apreciadas com devoção na Bretanha. No quadro que informa
o prato do dia, na entrada dos restaurantes, é fácil vê-las
encabeçando as atrações da casa. Ou sendo vendidas em pequenos
quiosques, na rua mesmo, fresquíssimas.
A oferta de restaurantes na Bretanha é muito grande,
como ocorre de maneira geral no país. A maioria deles é de pequeno
porte, de propriedade familiar, e cobra preços honestos. Na França,
segundo dizem seus habitantes, restaurantes que não servem comida bem
feita não sobrevivem. O menu do dia costuma trazer a combinação mais
compensadora de entrada e prato principal. Ou, às vezes, prato principal
mais sobremesa e/ou queijo, sempre oferecido no final da refeição.
Se a idéia é economizar, as brasseries podem ser uma
saída, com seus sanduíches, crepes e quiches. No que se refere a vinho,
os restaurantes têm grande variedade de tintos, brancos ou rosés. A
alternativa mais econômica continua sendo pedir o vinho em pichet (um
tipo de jarro), em jarras de um quarto ou de meia garrafa. Se quiser uma
garrafa, também não há problema: a maioria dos vinhos oferecidos é
plenamente bancável.
Quem gosta de lojas de alimentos vai se dar bem na
região. As charcuteries têm sempre muitos embutidos, de salsichões e
presuntos até especialidades mais típicas como a andouille, feita com
bucho de porco. Os mercados também expõem uma infinidade de patês,
geléias e galletes, o biscoito doce mais popular da Bretanha, feito com
muita manteiga, o que deixa seu gosto levemente salgado.
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