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A clássica despedida no aeroporto. Pai e mãe dão as
famosas recomendações finais ao querido rebento. A cena é mais
complicada do que parece. Ele não está exatamente saindo de férias, mas
indo para a escola. Não vai apenas ficar longe de casa; vai mudar-se para
um novo endereço. Não é uma viagem qualquer. Ele vai conhecer uma nova
família, fazer novos amigos, viver em outra cultura. E o pior (para os
pais): depois de passar entre seis meses e um ano longe de casa,
fatalmente ele voltará falando coisas estranhas como "pai
americano", "mãe americana" e pode até acabar comparando
os postiços aos verdadeiros.
Essa viagem, enfim, não é apenas um programa legal.
Para o bem ou para o mal, ela será referência para toda uma vida. E é
por isso que optar por um programa de intercâmbio para o seu filho não
é a mesma coisa que escolher um pacote turístico.
Anualmente, estima-se que quase 3 mil dos 4 milhões de
estudantes secundaristas brasileiros embarquem em algum dos programas de
intercâmbio oferecidos pelas mais de vinte empresas do ramo, com
representações por todo o Brasil. Destes, mais de 95% vão estudar em
alguma escola americana, conhecer a fundo o way of life de uma típica
família de classe média, morar numa casa com gramado verde na entrada,
cachorrinho e triturador de alimentos no ralo da pia. E, na volta, além
da saudade dos pais e irmãos postiços, eles ainda trazem a fluência em
outro idioma, uma grande experiência de vida e, é claro, o diploma
escolar. O sistema educacional americano é bem diferente do nosso. A high
school, o equivalente ao secundário, tem quatro anos em vez de três e a
escolha das matérias fica a cargo do próprio aluno. Apesar disso, o ano
letivo não é perdido desde que o aluno tenha boas notas e freqüência
nas cinco matérias básicas exigidas pelo Ministério da Educação
(MEC). Por exemplo, é essencial que se freqüente uma aula de química,
mesmo quando obviamente é muito mais tentador substituí-la pela de
teatro. As empresas de intercâmbio informam quais são as matérias
obrigatórias e como proceder legalmente para validar o histórico escolar
no Brasil. Para outros países como França, Alemanha, Austrália, Nova
Zelândia ou Canadá, o procedimento é quase o mesmo. Somente o sistema
de ensino público inglês - bastante diferente do nosso - ainda não é
reconhecido pelo MEC.
Não perder o ano na escola é apenas uma
contingência. Do ponto de vista acadêmico, fazer a high school num
colégio público americano não é um bom negócio para quem estuda em um
colégio particular brasileiro. "Lá o ensino é bem mais fraco em
termos de informação, mas ganha em formação", explica Maria Inez
G. Grasso, diretora da Friends in the World, empresa representante de
programas de intercâmbio. Formação, segundo ela, significa a
preocupação que as escolas têm em preencher outros setores da vida do
jovem. Elas tornam-se o centro de vivência do aluno, onde ele vai
encontrar os amigos, praticar esportes, cantar no coral ou até mesmo
aprender a dirigir. Mas, apesar de todas serem igualmente menos exigentes,
do ponto de vista do aprendizado, que as escolas particulares brasileiras
- há diferenças entre elas. "Como o ensino público americano é
estadual, Estados mais pobres costumam ter colégios com menos
infra-estrutura", revela Maria Inez.
Nesse aspecto, os programas de intercâmbio podem ser
comparados a uma roleta-russa. Desde o momento da inscrição até, em
média, um mês antes da viagem, ninguém sabe onde vai parar. Pode ir
para uma escola boa ou uma ruim. Pode ir parar na Califórnia ou no
Alasca. É um grande mistério. Nas fichas preenchidas no Brasil,
raramente o aluno pode indicar suas preferências, mas mesmo quando isso
ocorre ele não tem nenhuma garantia de que elas serão atendidas.
"Se ir para a Califórnia for condição sine qua non, descartamos o
pretendente logo de cara", explica Rosemiriam C. S. Antonoff,
coordenadora da IES (International Exchange Service). Nesse intercâmbio,
as regiões americanas são divididas verticalmente; como a Califórnia e
o Alasca pertencem à mesma faixa vertical, é até possível que, ao
escolher a primeira, se vá parar na segunda. "Isso pode gerar um
pânico, mas logo explicamos que o Alasca é um Estado rico, onde as
pessoas têm um nível sócio-econômico muito bom e todos os
intercâmbios que fizemos para lá foram um sucesso", justifica.
"Além do mais, não é todo aluno que pode ir. Nós queremos pessoas
maduras e abertas a mudanças", informa Rosemiriam.
Já na empresa Central de Intercâmbio, não se pode
nem indicar a região preferida. "O programa não é acadêmico nem
turístico, é um intercâmbio cultural. O participante deve estar
disposto a conhecer uma nova realidade. Se ele faz muitas exigências,
quer dizer que não está apto a participar", diz Luciana Sampaio,
diretora da CI. "Ir no escuro é uma característica do
intercâmbio", alerta, ressaltando, ainda, que é a família que
escolhe o aluno, portanto, ao definir uma região, o candidato restringe o
número de famílias e, conseqüentemente, diminui as chances de encontrar
a família ideal.
A única organização estrangeira que garante a
escolha da região e, em alguns casos, de colégios específicos
solicitados pelo candidato, é a IEF (International Education Forum),
representada no Brasil pela Friends in the World. "Tivemos um caso de
uma menina que fazia balé e não queria parar, então arranjamos uma
escola que priorizasse essa atividade", conta Maria Inez. Para isso,
cobra-se uma quantia extra e a documentação deve ser entregue com, no
mínimo, dez meses de antecedência. A região da Califórnia, a mais
procurada, equivale a um adicional de 500 dólares.
Outra opção para quem quiser ser dono de seu próprio
destino é partir para um colégio particular, uma variante que está
tomando força este ano. Isso pode custar, no mínimo, 10 mil dólares,
contra os 4 mil, em média, pagos pelo programa de seis meses em colégio
público americano. Estes valores não incluem a passagem aérea e, já
que a escola é gratuita, a família receptora não ganha nada além de
uma dedução no Imposto de Renda de, no máximo, 50 dólares ao mês, o
dinheiro remunera basicamente o serviço da organização e o seguro
saúde. Pode até parecer muito caro, mas conseguir uma bolsa por conta
própria - sem a intermediação de empresas especializadas - é quase
impossível.
O objetivo inicial do intercâmbio, criado na década
de 40, era levar brasileiros para estudarem no exterior e trazer
estrangeiros para as escolas brasileiras. No entanto, houve um grande
desequilíbrio entre o número de brasileiros que quiseram sair e os
estrangeiros que pretendiam vir para cá. O termo intercâmbio, assim,
virou simples força de expressão: na verdade é um programa de
exportação de estudantes brasileiros.
As organizações internacionais representadas pelas
empresas brasileiras são severas no cumprimento dos pré-requisitos
básicos. O jovem deve ter entre 15 e 18 anos, nível intermediário de
conhecimento do idiomas do país para onde pretende ir e não pode ter
sido reprovado na escola nos últimos três anos. Se, porém, o destino
forem as escolas particulares, o esquema é um pouco mais maleável. Em
ambos os casos há uma batelada de entrevistas para garantir que o
candidato tenha maturidade suficiente para ir. "Se o estudante não
estiver bem emocionalmente, não adianta. Nós queremos alunos
cabeça", afirma Maria Cristina Buchala, diretora da VIA/MC
Intercâmbio, representante da organização Aspect no Brasil.
Içami Tiba, psiquiatra, palestrante e autor de sete
livros sobre adolescentes, concorda que o intercâmbio seja uma
experiência excelente, desde que o estudante tenha uma boa estrutura
psicológica. "É difícil traçar um perfil único, mas em geral um
intercâmbio não é recomendável para jovens muito introvertidos e com
dificuldade de adaptação escolar aqui no Brasil", explica. Segundo
ele, nesses casos, o jovem pode voltar mais desorganizado e com problemas
de adaptação. "Mas somente uma pequena porcentagem pode ficar
prejudicada. A maioria volta mais forte, experiente e independente",
completa. Ele ressalta, ainda, que o sucesso da viagem depende muito da
família receptora.
É aí que entra o calhamaço de no mínimo dez
páginas que todo candidato a intercambista preenche. Esse dossiê abrange
todos os aspectos da vida do estudante. O objetivo é saber o máximo:
desde como é o nível de relacionamento do jovem com os pais até se ele
faz coleção de selos. Todo o material é enviado para a organização
estrangeira, que faz o casamento das expectativas das famílias dispostas
a receber e dos intercambistas. Quem escolhe efetivamente o aluno é a
família. E mesmo que dê tudo certo ninguém está livre daqueles
conflitos que sempre acontecem nas melhores famílias. Para resolver
qualquer problema dessa ordem, os bons programas contam com um staff de
plantão. Geralmente há um representante local ou regional, outro no
Estado e um número de telefone tool free (ligação gratuita) 24 horas da
sede da organização. Já que a maioria dos percalços é mesmo de
adaptação, em último caso, o jeito é mudar de família.
Foi o que quase aconteceu com a capixaba Caroline A. M.
Leal, de 19 anos, que foi para os EUA em 1993. Ela começou a se
desentender com a "mãe" americana, que não a deixava sair à
noite e reclamava que ela não dava a atenção devida para a família
adotiva. Uma discussão nada incomum em qualquer família que se preze.
"O problema é que eu não podia discutir com eles do jeito que
discuto com meus pais aqui", explica. Por conta própria, Caroline
resolveu se mudar para a casa de uma amiga americana e comunicou ao
coordenador. "Quando minha ‘mãe’ americana soube, ficou tão
ofendida por eu não ter conversado diretamente com ela que não quis mais
falar comigo. Foi horrível." No final, acabaram conversando, se
entendendo e, ao voltar ao Brasil, passaram semanas chorando de saudades
pelo telefone. "Eu estava muito errada, a gente tem de se
adaptar", confessa. Caroline já foi uma vez visitar a família
americana e pretende ir novamente em breve.
A própria condição psicológica dos pais brasileiros
também entra em xeque na hora da seleção. "Se notarmos que um
deles não está preparado para ficar longe, o filho não embarca",
diz Rosemiriam Antonoff, da IES. O problema não é apenas a saudade, mas
o fato de que os pais de um intercambista devem estar preparados para
aceitar a mudança do filho após a volta. Içami Tiba explica que o jovem
faz intercâmbio na véspera do que chama de "segundo parto", ou
seja, quando ele nasce para a sociedade. "Quando esta mudança
acontece lá fora, os pais podem perder a noção da fase pela qual ele
está passando e, ao voltar o tratam novamente como criança. Isso pode
gerar uma tremenda revolta", alerta.
Mudanças de comportamento são inevitáveis depois de
uma experiência dessas. Ao pisar novamente no aeroporto de onde saiu, o
adolescente é outra pessoa. Ele soube administrar a solidão, sofreu,
chorou e enfrentou situações difíceis sozinho. Agora, nada será como
antes. O ano do intercâmbio ficará, para ele, como o primeiro do resto
de sua vida.
DICAS PARA ESCOLHER O MELHOR INTERCÂMBIO
1 Pergunte, pergunte e pergunte. Não tenha vergonha de
fazer as questões mais absurdas e anote tudo. Só se decida por algum dos
intercâmbios quando você puder dar uma palestra de cinco horas sobre o
assunto.
2 Garanta que o seu filho vai ter a quem recorrer se
tiver qualquer problema lá fora. Pergunte se há um representante da
organização nas cidades e se ele vai contar com um telefone tool free 24
horas para alguma emergência.
3 Converse com todo mundo que você conheça que já
fez intercâmbio ou que tenha mandado os filhos. E peça também alguns
nomes nas empresas que você visitar.
4 Apure o grau de exigências que a empresa faz. Veja
quantas entrevistas, testes e questionários ela utiliza para selecionar o
candidato. Supõe-se que se ela exige muito de você, também exigirá da
família estrangeira.
5 Saiba que o próprio jovem tem de dar entrada, ainda
no exterior, na papelada para não perder o ano escolar. A empresa precisa
dar uma boa orientação nesse sentido.
6 Verifique que tipo de informação sobre a família
estrangeira você terá antes da viagem. Algumas empresas só fornecem o
endereço, em outras você terá acesso a uma ficha com fotos e hábitos.
Assim, você saberá com mais segurança o que seu filho vai encontrar.
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