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BRASÍLIA
Vista do alto, Brasília mais parece uma borboleta se
esparramando pelo chão do Planalto Central. Ou seria um avião? O formato
da cidade divide opiniões. O arquiteto Lelé Filgueiras, que, com Lúcio
Costa e Oscar Niemeyer, formou a santíssima trindade da construção da
cidade - inaugurada em 1960 -, prefere ver a Brasília que ajudou a erguer
como uma fulgurante borboleta. Músico diletante, ele também enxerga a
capital federal como uma partitura, onde os blocos e quadras seriam doces
notas musicais encravadas numa pauta de linhas formadas pelas avenidas. A
visão do arquiteto, porém, costuma parecer um deslavado delírio aos
olhos dos turistas apressados - aqueles que se contentam em percorrer em
velocidade os monumentos - ou dos homens de negócios, que vêm a
Brasília apenas para reuniões com políticos. Afinal, quem circula pela
capital do país com displicência ou pressa é até capaz de pensar nela
como música - desde que seja um monótono samba de uma nota só.
Brasília não deve ser vista como uma cidade
entediante ou uma maquete habitada. Tampouco como um mero cenário de
telejornal das 8. Por detrás dessas pechas, existe uma cidade bonita,
dinâmica e - por que não? - humana, com grau de civilidade bem acima da
média nacional. Seus 400000 habitantes têm, por exemplo, o melhor
índice de instrução do país, sendo que 120000 deles já nasceram aqui
e debaixo de um céu de um azul tão azul que parece irreal. O truque - se
é que é preciso algum para gostar de Brasília - é não se ater apenas
ao, digamos, circuito cartão-postal. Não fique apenas no trecho Palácio
do Planalto-Teatro Nacional-Catedral Metropolitana-Itamaraty. No começo,
você talvez sinta falta até do cheiro de óleo queimado e do céu
cinzento típico das grandes cidades brasileiras. Esqueça. Poluição é
substantivo abstrato em Brasília, a não ser quando a seca massacra o
cerrado, de agosto a outubro, e faz as matas arderem ao redor da cidade.
Não é ilusão de ótica: nenhum prédio da cidade tem grades em volta.
No dia seguinte, talvez você precise atravessar a rua para comprar o
jornal na banca do outro lado da "superquadra", que é como eles
chamam por aqui os imensos quarteirões, com 300 metros de comprimento
cada um. Pois fique parado à beira da faixa de segurança e sinta a
diferença: os motoristas pararão cordialmente os carros e deixarão
você passar. Não é verdade, portanto, que Brasília seja uma cidade
feita para carros e não para gente, uma espécie de autorama dos
urbanistas. Caminhando pelas ruas das superquadras, você poderá colher
amoras nas da Asa Sul ou mangas nas da Asa Norte. Em quantas capitais do
mundo isso ainda acontece? Brasília também tem o seu grande parque, o
Parque da Cidade, que vai do Eixo Monumental ao fim da Asa Sul. É maior
do que o Central Park de Nova York.
Livre dos preconceitos contra Brasília, entre no
cartão-postal. O início do tour pode ser o entardecer na Esplanada dos
Ministérios, visto do lado oposto ao Congresso, de cima da Torre de Tevê
- sem o glamour da Torre Eiffel, mas também capaz de proporcionar um
visual deslumbrante. Respire fundo e encare a beleza do cerrado. Sim, os
17 edifícios dos ministérios parecem caixotes enfileirados e
repetitivos. Mas foi proposital: eles acabam ressaltando a beleza dos
outros prédios. Como o do Congresso. Ou a Catedral, com seu teto de
vitrais de onde pendem imagens dos anjos. Depois da caminhada, que tal uma
paradinha na Praça dos Três Poderes para descansar e ver a Esplanada do
ângulo oposto ao da Torre de Tevê ? Os brasilienses costumam levar vinho
para bebericar ali nas noites frias de junho e julho. Bobagem. A Praça do
Setor Militar (um conjunto de esculturas de pedra em forma de cristais,
criado por Burle Marx), o Quartel General do Exército e o Oratório do
Soldado (com uma nave central de 24 metros de diâmetro), todas no Setor
Militar Urbano, a poucos minutos dos hotéis, também são visita
obrigatória, embora quase todos os turistas ignorem completamente tais
atrações. Acredite: é um dos lugares mais visitados de Brasília. Há
quem diga, e com alguma razão, que o prédio exagerou no kitsch. Em 1883,
este padre salesiano ousou uma visão do futuro e anunciou que a nova
civilização surgiria entre os paralelos 15 e 20, exatamente onde
Brasília se localiza. Juscelino Kubitschek, o presidente que tirou
Brasília da cartola, provavelmente estranharia esses devaneios. Mas ele
próprio agarrou-se à idéia de construir Brasília como se agarra a uma
seita. Durante um comício em Goiás, JK ficou sabendo que, em 1823, nos
idos do Império, José Bonifácio de Andrada e Silva - o político mais
importante de então - imaginou a transferência da capital para o
Planalto Central e até deu-lhe o nome: Brasília. Previu os estrangeiros
nas embaixadas, a mistura modernista e a vida em família nas superquadras.
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